DIOPTRE

Colapso dos Sentidos

 por Bernardo José de Souza

 

Sobre a superfície da folha em branco, ou do corpo nu, histórias são escritas, marcas são deixadas. Tal como um palimpsesto, ela absorve camada após camada de tinta – ou de vida, se preferirmos –, e a leitura dos sinais ali gravados constitui-se em exercício de tradução permanente, uma vez que a busca pelo sentido sempre implica alcançar as camadas ulteriores de narrativas que nos são estranhas. Apenas assim torna-se possível penetrar o desconhecido. 

 

As singularidades de uma história só podem ser comunicadas mediante sua tradução. De acordo com George Steiner, comunicação, compreensão e tradução constituiriam termos análogos, uma vez que a comunicação é baseada na compreensão e a compreensão só é possível a partir de processos de tradução através do tempo, do espaço e de diferentes fronteiras.

 

Ao levar adiante seu processo de investigação do corpo e da palavra, Andressa Cantergiani vai encontrar no estrangeiro o enigma da tradução. A alteridade que produz a diferença – e demanda interpretação – torna-se o objeto de sua pesquisa em Antworte, uma performance que, como no Livro de Cabeceira, de Peter Greenaway, se dá mediante as anotações feitas sobre a própria pele. Em resposta à pergunta o que é um estrangeiro?, o público ali inscreve suas palavras, as quais são interpretadas pela artista, de maneira tátil e intuitiva, em traduções transcritas para a parede da galeria.

 

Neste projeto, as diferenças culturais, e os enfrentamentos políticos delas resultantes, ganham novas possibilidades de mediação a partir da linguagem, que aqui não mais opera como barreira, mas como campo semântico aberto, um espaço para a tradução e a interpretação. O resultado desta operação é uma "Babel" de expressões que se apresenta como alternativa dialética para corpos e culturas estranhas umas às outras.

 

Já em Dioptre, performance realizada por Andressa Cantergiani e Roberta Vaz, a oposição entre duas forças opostas gera o tensionamento e o consequente esgarçamento das possibilidades dialéticas, levando não a uma síntese, mas a suspensão de um léxico comum e de suas possibilidades sintáticas. A ausência de articulação de propósitos entre ambos os corpos acaba por inviabilizar qualquer possibilidade de comunicação, produzindo o absoluto colapso do sentido.

 

Dois corpos se digladiam nesta performance "às escuras", a qual se dá num ponto cego da História, marcado pela mais absoluta aporia diante do tempo presente.

Como na parábola de Kafka, na qual dois guerreiros, simbolizando o passado e o futuro, encontram-se em embate, em Dioptre o tempo presente também é posto em suspensão. Entretanto, diversamente da interpretação dada por Hannah Arendt ao texto de Kafka, aqui não é mais o passado que nos impulsiona para frente, ao tempo em que o futuro nos bloqueia e imobiliza: nesta performance, parecemos estar desalentadamente sendo puxados para trás, repisando a História, incapazes de fazer face ao embate entre as temporalidades e, portanto, impedidos de refletir com lucidez sobre a violência daquilo que se processa aqui e agora.

 

Por fim, temos as faces femininas, belas e mutiladas, cujos olhos foram arrancados nas colagens da série No Eye Gouging de Roberta Vaz, a emergir como medusas contemporâneas, petrificadas diante de nós, possíveis espelhos de um mundo em descontrole.